
Os meninos do Mombojó decidiram não mais dar cabimento para o ócio e lançar, depois de quatro anos, Amigo do Tempo. Com algumas mudanças na banda e no ambiente artístico (São Paulo), esse álbum é o que mais se difere do Nadadenovo e de Homem-espuma, que apresentavam mais características comuns que provavelmente devem-se ao espaço de tempo que se seguiram os dois primeiros álbuns (2 anos), enquanto o Amigo do Tempo só foi lançado 4 anos depois de Homem-espuma.
Em Entre a União e a Saudade a melodia pontua bem fortemente uma imagem de caminho a percorrer, de um rio descendo as montanhas, com uma rapidez que se mantém bem sitemática após a letra ser apresentada. “Me livrar da dor e voar” parece o objetivo do eu-lírico ao percorrer esse caminho, libertar-se. Mas esse tal caminho, a própria noção de ter-se que desforrá-lo já não é uma prisão? A prisão de si mesmo? A prisão do outro?
Antimonotonia é angustiante, daquelas músicas sombrias que lembram cenas de filmes do Beto Brant extremamente urbanas. Esse ar meio misterioso que se alia a sons infantilizados (risadas macabras extremamente sarcásticas) resultando numa música ímpar dentro do álbum.
Animadinha, Passarinho Colorido é bem ágil e aceitável aos ouvidos do espectador principiante, pelo menos foi uma das que eu mais me empolguei na primeira vez que ouvi o álbum. Entretanto, essa agilidade peculiar pra banda acabou privilegiando o próprio ritmo e jogando à margem a palavra, tão prezada pelo mombojó. Essa foi a impressão que, depois de ouvir várias vezes o álbum, ficou pra mim. Por isso, é a faixa que eu menos aprecio.
Justamente é fatalmente, simplesmente, uma música que traduz muito bem a sensação que assombra o Amigo Do Tempo: a monotonia, o eterno, o ócio, o tempo, aquela vontade incessante de “ir além dos dias”. Ela é uma das minhas preferidas, e é também uma das que mais lembra os álbuns anteriores (olha a conservadora rs).
Taí. Outra música profundamente triste. Qualquer Conclusão me lembrou “Long Plays” do Pública. Não em melodia, ritmo ou sensação, mas no estilinho da letra. O cara compõe uma música pra dizer que sofreu por alguém, e que, agora, já passou. Que ela pode tirar “qualquer conclusão sobre o que quiser” dele e etc. Mas e aí? Se ele já esqueceu, já sofreu e já acabou mesmo, por que será que ele tem necessidade de fazer uma música e gritar isso pro mundo heim? Engraçadinho.
Praia de Solidão está entre as últimas colocadas no meu top inconsciente de faixas desse álbum. O início dela me agrada bastante, mas depois de alguns segundos, ela fica meio desengonçada e o fã broxa. Pelo menos eu broxei.
Ok, Casa Caiada é genial. Eu ainda vou descobrir sem trapacear a letra distorcida da introdução. “O barro da rua, a lama do bairro” hipnotiza. E sim, o tempo é o tema maior dessa música. Tempo, ócio, monotonia… parece-me que depois que os caras vieram pra São Paulo estão bem entediados. Ou não, rs.
Aumenta o volume, a princípio, é super linear, parece que não vai surpreender. E claro que isso não acontece. Ela assusta no refrão, mas depois a gente acostuma e entra no clima. “A gente aumenta o volume mesmo, e ‘esquece o impossível, desperta o infinito em seu olhar”.
Triste demais se define super bem com esse título. É daquelas “tristes demais pra televisão”, mas que, mesmo sendo carregada dessa negatividade, é do mombojó, e, sendo do mombojó, sempre tem uma mágica que encanta mesmo, que tranqüiliza apesar dos pesares. É estranho, mas é verdade. Aé, ela me lembra bastante a vida do Chinaski.
Finalmente a faixa que deu nome ao álbum: Amigo do tempo. Bem que Montaigne diz que a ociosidade te faz perder-se em si mesmo, em pensamentos sem conclusões e nem perguntas realmente pertinentes. Assim, “almejo ser um amigo do tempo, dar cabimento para o ócio é que não dou” é a primeira frase pronunciada por Felipe S. nessa faixa, e a sentença que resume a musica, que faz a gente entender que o eu-lírico quer o “espírito do tempo, zeitgastiando para não sobrar no vento”.
Papapa é minha preferida. Talvez seja um pouco porque é a última faixa, mas isso eu já é um mistério. Os samples inúmeros e também me lembram de um mombojó mais antigo, mas mesmo assim, completamente renovado, bem mais multiplicado musicalmente.
Acho que aquela áurea de São Paulo, do urbano bem acentuado, invadiu as músicas do mombojó, mas os caras não deixam de lado nem aquela essência rítmica que faz o som fluir, e escorregar nos ouvidos dos fãs, sempre com o sotaque bem carregado de Recife.